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Jorge Jesus: a nova saga de um técnico que cairia como uma luva na seleção brasileira

julho 10, 2026 4 min de leitura
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Escrito por

Fred Soares

Jorge Jesus: a nova saga de um técnico que cairia como uma luva na seleção brasileira
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Emocionei-me hoje. Vi Jorge Jesus assumir a seleção de Portugal e senti um aperto no peito, por dois motivos que a notícia não explicava.

O primeiro é fácil de dividir com qualquer um: dirigir uma seleção era o sonho da vida dele. Aos 71 anos, depois de rodar por Benfica, Sporting, Flamengo, Turquia e Arábia, sentou enfim na cadeira que faltava. Na apresentação, ao falar do orgulho de treinar o próprio país, quase perdeu a voz. Se recompôs com a frase que só ele diria: no papel são 71 anos, mas por dentro ele se sente com 50. Não duvidei.

O segundo motivo é mais egoísta, e eu assumo. Eu queria que fosse o Brasil. Queria aquele senhor de crista prateada e voz de ex-fumante mandando na nossa seleção, defendendo a beleza de um troca de passes rumo à baliza como quem defende um jeito de viver. Não vai ser. E doeu.

Doeu porque Jesus entendeu uma coisa que anda rara: a complexidade de um jogo é, no fundo, a coisa mais simples do mundo. O desafio de todo grande técnico é esse: fazer o simples funcionar. Enquanto meia dúzia de iluminados enche a lousa de setas, ele repete que o negócio é jogar bem, atacar, caçar o gol como se a vida dependesse disso. Que é mais ou menos como a gente joga )ou jogava) por aqui. Foi assim que grudou na alma do Flamengo: ergueu a Libertadores em Lima com uma virada nos acréscimos e, menos de um dia depois, viu o Brasileiro cair no colo. Até hoje tem rubro-negro que chora ao falar do Mister. E aposto que muitos vão acordar amanhã com uma bandeira de Portugal nova no coração.

Tem outra coisa nele que eu admiro e que anda em falta: coragem. Jesus tem tanta estrada que ganhou o direito de não temer nome nenhum. Tira, põe sentado no banco, substitui craque consagrado sem tremer. Hoje mesmo, perguntado sobre lidar com grandes estrelas, contou que treinou dois dos três melhores do mundo e que, ao Neymar, um dia disse na lata: “tu, finish”. Acabou. O que for melhor para a equipe é o que ele faz – e pronto. Essa coragem, aliás, talvez tenha sido exatamente o que faltou à nossa seleção em 2026. Muitos titubeia diante dos famosos. Jesus, nunca. No Flamengo foi assim, na Arábia foi assim, a vida inteira foi assim.


Anos atrás, Mathias Alencastro escreveu na Folha de S. Paulo um retrato dele que nunca me saiu da cabeça: Jesus como o avesso de Mourinho. De um lado, o poliglota metrossexual das galas e das offshores; do outro, o homem de preto da cabeça aos pés, de luto pela mãe, criado batendo cabeça em clubes pequenos como o Belenenses, ali ao lado do mosteiro onde dorme Camões. Um é o vencedor que ninguém ama. O outro, o “perdedor” que todo mundo adora. Alencastro dizia que os grandes portugueses só cumprem o destino quando cruzam o Atlântico Sul. Jesus cruzou, cumpriu, e na ocasião voltava para casa coroado por uma terra que nem era a dele.

E aqui chego ao que defendo faz tempo, e que ele encarna como ninguém: futebol não é ciência exata. É gente. O humanismo joga de braço dado com a bola, e quem não sente isso pode saber tudo de estatística e ainda assim não entender nada. Jesus não tem diploma de coisa alguma, mas tem no ouvido a música do jogo.

A estreia oficial é em setembro, contra o País de Gales, e a Copa que ele sonha comandar de verdade é a de 2030. Mas o jogo que já me tira o sono vem antes. No dia 4 de outubro, no Dragão, Portugal recebe a Noruega – sim, aquela mesma Noruega do Haaland que nos despachou nas oitavas, num domingo em que o Brasil foi a antítese de si próprio, negando ponto por ponto tudo o que um dia nos fez grandes. E aí mora a ironia mais cruel de todas. Se o Jesus puser os portugueses para jogar bonito contra esses mesmos noruegueses, a nossa derrota vai doer o dobro – porque não terão batido só o Brasil, terão mostrado, com sotaque de Lisboa, o futebol que devia ser o nosso.

Fico aqui, meio torcedor órfão, imaginando o que teria sido. Mas se era pra ele ser feliz em algum canto do mundo, que seja em casa. Boa sorte, Mister. A gente, daqui, vai fingir que não está com um pouco de inveja.

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