𝙁𝙡𝙖𝙢𝙚𝙣𝙜𝙤: 𝙛𝙞𝙣𝙖𝙡, 𝙢𝙤𝙧𝙩𝙚, 𝙫𝙞𝙙𝙖 𝙚 𝙖𝙣𝙘𝙚𝙨𝙩𝙧𝙖𝙡𝙞𝙙𝙖𝙙𝙚

Por Fred Soares

Este texto foi escrito originalmente em 16 de dezembro de 2025.

Uma homenagem a Zico, Arthur Muhlemberg, Claudio Cruz e Filipe Luís

A morte, na nossa civilização de gravata e epitáfio, foi transformada num escândalo. A herança greco-romana – esse pacote de mármore e desespero – nos ensinou a olhar a morte como a derrota final, a porta fechada, o último suspiro do sujeito e dos seus sonhos. E eu sempre desconfiei desse moralismo funerário. O torcedor, por exemplo, sabe o que o filósofo não sabe: tem morte que é cura. Tem fim que é começo. Tem queda que é impulso.

Por isso, rubro-negro, eu te convido, nesta quarta-feira, a uma experiência de morte. Calma. Não a morte burocrática dos cartórios, não a morte cinzenta dos velórios em que o mundo fica pequeno e a alma, envergonhada. Eu falo da morte positiva – essa morte que, em vez de nos roubar, nos devolve. A morte como rito de passagem. A morte como reset. A morte como um “chega!” no homem velho, para nascer o homem novo, com os olhos lavados e o peito em brasa. Porque o Mundial, veja bem, não é um jogo. O jogo é o disfarce. O óbvio ululante é que, quando o Flamengo entra numa final como essa, o que está em disputa não é apenas a taça: é a nossa biografia secreta. É o menino que a gente foi, com o radinho colado no ouvido. É o adulto que a gente finge ser, com boleto pago e sorriso de “tá tudo bem”. E, por baixo de tudo, é o mesmo coração: um animal antigo, vermelho e preto, que não aprende a ser moderno. E tem mais: ninguém vira Flamengo sozinho. Ninguém acorda um belo dia, com o cérebro iluminado, e decide: “serei rubro-negro porque fiz uma análise criteriosa do futebol brasileiro”. Isso não existe. Flamengo não é escolha; é herança. É sangue transmitido por gesto. É um tio que te levava pela mão. É um pai que te ensinou o hino antes de ensinar o caminho da escola. É uma avó que, sem entender direito a tabela, entendia tudo do destino e te dizia, com aquela autoridade de quem já enterrou e já viveu demais: “Meu filho… esse time é nossa casa”. É um amigo da família que te deu a primeira camisa usada, quase do tamanho de um cobertor, e te deu junto um rito: “quando o Flamengo jogar, você para tudo e escuta”. E esse tio recebeu de alguém. E esse pai recebeu de alguém. E essa avó – ah, essa avó – veio de uma época em que o rádio era altar e o narrador era sacerdote.

A gente carrega, no peito, uma linhagem. Há uma ancestralidade rubro-negra que não é metáfora: é cadeia. É dominó. É efeito borboleta. É o passado empurrando o presente com uma mão invisível. Por isso eu digo: quarta-feira não é só Flamengo x Paris Saint-Germain. Quarta-feira é um ato de devoção. O Paris Saint-Germain virá com seu perfume caro, com sua vitrine internacional, com a pose de quem já nasceu vencedor. É um clube que parece ter sido desenhado por um departamento de marketing – e eu não digo isso como insulto; digo como diagnóstico moral. Do outro lado, vem o Flamengo, esse ser humano coletivo, esse povo em forma de time, essa multidão que não cabe no estádio e transborda para dentro da vida. Um é a elegância do cartão de visitas; o outro é a paixão que suja a camisa e faz valer a pena. Mas preste atenção: quando o Flamengo entra num jogo assim, ele não entra sozinho. Entram junto os que nos ensinaram a amar. Entram os que já se foram – e que, por um capricho do destino, escolhem dias raros para voltar. O futebol tem dessas coisas: ele abre uma fresta no tempo. Ele permite que a gente sinta, por alguns minutos, que a morte não é um muro, é uma porta. Que o ausente pode reaparecer numa memória tão viva que parece presença. E esta quarta-feira tem cara de dia em que os nossos voltam.

Voltam para olhar por cima do nosso ombro. Voltam para sentar no canto do sofá onde ninguém senta. Voltam para pedir silêncio no momento do hino. Voltam para apertar nossa mão quando o coração dispara. Voltam para cobrar coragem – porque ancestralidade também é cobrança: “honre o que te dei”. E aí, rubro-negro, você entende: você não vai morrer sozinho. Morre o seu desânimo, morre o seu receio, morre a sua versão menor – e você renasce acompanhado, com os ombros cheios de pai, de tio, de avó, de todos os que te empurraram para ser Flamengo.

Você vai precisar morrer um pouco para assistir a esse jogo do jeito certo. Morrer do medo. Morrer do “vai dar ruim”. Morrer da prudência que só serve para quem não ama. Morrer do complexo de vira-lata que ainda ronda o futebol sul-americano como um fantasma mal pago. Morrer do sujeito que pede desculpas por sonhar alto. Porque o sonho do Flamengo, quando é grande, incomoda. O sonho do Flamengo, quando é grande, vira pecado para os outros. A vitória, nesse contexto, não é apenas alegria. A vitória é uma espécie de orgasmo espiritual. É aquela explosão que limpa o corpo por dentro, que apaga as ofensas do destino, que faz o mundo, por um instante, parecer justo. O gol – quando vem no jogo que importa – não é só um número no placar: é uma reza atendida. É uma cicatriz fechando. É o universo dizendo: “Taí o que eu te devia”.

Porque, vamos falar a verdade com a impiedade que Nelson Rodrigues exigiria: 44 anos é tempo demais para qualquer esperança manter a coluna ereta. Quarenta e quatro anos é quase uma vida. É uma geração inteira esperando o mesmo brilho. É pai que prometeu ao filho, é filho que virou pai, é avô que não viu, é neto que cresceu ouvindo que “um dia” ia acontecer de novo. Essa espera não é estatística: é carne. É lágrima. É sangue. É memória.

E é aqui que eu peço licença para carregar nas tintas: se o Flamengo vencer, a energia que vai nascer não é uma alegria pequena, doméstica, de apartamento. Vai ser uma bomba. Sim: uma bomba atômica. Mas uma bomba ao contrário. A bomba que não arranca membros nem arrasa cidades; a bomba que devolve humanidade. Uma bomba de paz. Uma bomba de alegria. Uma bomba de felicidade. Uma bomba que cai – não sobre inimigos – mas sobre um povo cansado, e o povo, em vez de morrer, revive. Vai ser um clarão que atravessa lares, bares, ruas, becos, ônibus, enfermarias, plantões, presídios, cozinhas. Vai ser um efeito dominó ancestral: o grito de agora acordando o grito de antes.

Você vai gritar, e no seu grito vai existir um grito que não é só seu. Vai existir a garganta do seu pai. Vai existir o riso do seu tio. Vai existir a mão da sua avó batendo na mesa como quem ordena: “vai, meu filho”. Vai existir aquele amigo da família, já ido, que te ensinou a sofrer e a não desistir. E, no meio da multidão, cada um vai estar acompanhado por uma legião íntima. Seremos milhões – e seremos mais, porque haverá os invisíveis. A vitória, então, não será “ganhamos do PSG”.

Será um acerto com o tempo. Será um recado para a morte: “aqui, você não tem a última palavra”. Será o torcedor olhando para si mesmo e percebendo que, apesar de tudo, ainda é capaz de acreditar com força. E isso, meu amigo, é um renascimento. Nesta quarta-feira, rubro-negro, vista a sua camisa como quem veste uma herança. Entre no jogo como quem entra num portal. Faça um minuto de silêncio por dentro – não de tristeza, mas de honra. E permita-se a morte boa – aquela que mata o cansaço antigo e devolve a criança que ainda acredita.

Quando a bola rolar, você não estará apenas torcendo. Você estará honrando. E, se vier o milagre que está atrasado há 44 anos, que venha com estrondo. Que venha com luz. Que venha como essa bomba atômica da alegria – capaz de reconstruir um país inteiro, nem que seja por uma noite. Porque, no fundo, é disso que se trata: a gente não quer apenas um título. A gente quer, por alguns instantes, que o mundo faça sentido. E o Flamengo há de proporcionar isso.