A fuga da Libra: como o Palmeiras perdeu a queda de braço com o Flamengo e a questionável cobertura de parte da imprensa

Por Fabrício Chiccha (@mundonabola)Arquiteto, professor universitário e analista técnico e tático


Eu não sou jornalista ou advogado, mas foi fácil perceber estarmos diante de produtos ruins de jornalismo. O silêncio, às vezes, é a confissão mais barulhenta que existe. Mas no caso do Palmeiras e sua recente saída da Libra, o barulho veio em forma de nota oficial. Uma nota que, lida com a devida atenção, não é um manifesto de independência, mas um atestado de derrota política. A presidente Leila Pereira, que durante meses vestiu a capa de heroína do coletivo contra o “egoísmo” do Flamengo, saiu da Libra. O motivo? Os outros clubes, aqueles mesmos que ela jurava proteger, decidiram que um acordo com o Flamengo, aumentado a parte do clube carioca em R$ 150 milhões, faria sentido para todo mundo.

Para entender a ironia dessa fuga, é preciso voltar ao contrato original assinado em 2024. O documento estabelecia a divisão das receitas de TV, mas deixava uma lacuna crucial: como medir e distribuir os 30% referentes à audiência? A regra era clara: qualquer definição financeira exigiria unanimidade. O Flamengo, ciente de que gera a maior audiência do país, pleiteou uma distribuição proporcional ao que entrega. Uma lógica de mercado básica, que em qualquer outro setor seria tratada como obviedade.

No entanto, no peculiar ecossistema do futebol brasileiro, a obviedade foi tratada como heresia. Parte da imprensa esportiva, sempre pronta para comprar uma narrativa fácil, elegeu o Flamengo como o vilão ganancioso e Leila Pereira como a paladina da justiça distributiva.

O jornalista Paulo Vinícius Coelho, o PVC, escreveu que o Flamengo assinou não leu, problema é seu. A frase envelheceu como leite ao sol. A ironia é que ela hoje se aplica perfeitamente ao Palmeiras. O clube paulista assinou um contrato que deixava a divisão de audiência em aberto. Assinou e não leu. De fato, o jornalista teria razão se estivesse se referindo ao Palmeiras. Gustavo Zupak foi além, afirmando que o Flamengo tinha um “comportamento extremamente egoísta” e que Leila Pereira estava “coberta de razão” por ser a única a “peitar” o clube carioca. Danilo Lavieri, em um episódio que ainda aguarda retratação, chegou a publicar a informação incorreta de que o ex-presidente Rodolfo Landim havia assinado o contrato concordando com critérios que, na verdade, nunca existiram no papel.

Durante esse circo midiático, Leila Pereira não economizou nas bravatas. Sugeriu que o Flamengo formasse sozinho uma liga para jogar contra o próprio sub-20. Posou de defensora dos oprimidos, afirmando que o Palmeiras estava disposto a perder dinheiro para ajudar os clubes menores. Era uma narrativa sedutora, mas que não resistiu ao teste da realidade.

A realidade bateu à porta quando o Flamengo e a Libra finalmente chegaram a um acordo. O Flamengo cedeu um pouco, os outros clubes cederam muito, e o consenso foi alcançado. A proposta do Flamengo, afinal, não era o monstro pintado pela imprensa. Era um pleito justo, reconhecido pelos próprios clubes que Leila Pereira dizia defender.

E qual foi a reação do Palmeiras diante do consenso? A celebração da união? A aceitação democrática da vontade da maioria? Não. A reação foi a nota oficial de retirada, acusando “atitudes egoístas, quando não predatórias”.

A tradução do corporativês para o português claro é simples: a representante dos outros clubes abandonou o barco quando os outros clubes discordaram dela. O engodo ruiu. A postura de Leila Pereira nunca foi sobre defender o futebol brasileiro ou os times menores. Foi, desde o início, sobre defender os interesses do Palmeiras e, simultaneamente, tentar impor uma derrota política ao Flamengo.

Quando a derrota política mudou de lado, a paladina pegou o chapéu.

O mais fascinante é que, se o objetivo fosse realmente proteger o bloco, o Palmeiras teria permanecido. Pelo estatuto da Libra, o clube paulista tinha poder de veto. Poderia barrar qualquer avanço que considerasse prejudicial. Mas preferiu a saída estratégica, deixando o caminho livre para o Flamengo e para Luiz Eduardo Baptista, o Bap, que agora preside a Libra. A saída do Palmeiras é a melhor notícia que o Flamengo poderia receber.

Resta agora observar o silêncio daquela mesma imprensa que ergueu Leila Pereira ao status de salvadora. Onde estão as colunas indignadas sobre o “egoísmo” de quem abandona uma liga porque perdeu uma votação? Onde estão as cobranças sobre a “ganância” de quem prefere se aliar à CBF, uma entidade cuja vocação para organizar ligas é historicamente nula, mas agora parece querer a aceitar um acordo coletivo?

A cobertura desse episódio foi um desastre jornalístico. A desinformação foi tratada como fato, tanto quanto as opiniões enebriadas por amor a uns clubes e ódio a outros, e a bravata foi tratada como virtude. O torcedor, seja do Flamengo, do Palmeiras ou de qualquer outro clube, merece mais do que narrativas pré-fabricadas.

O Flamengo venceu a disputa não por imposição, mas por ter a razão matemática e comercial do seu lado. O Palmeiras perdeu a disputa e, em seguida, perdeu a compostura. E a parte da imprensa esportiva que fez uma cobertura péssima dos acontecimentos? Bem, essa perdeu a vergonha na cara.